Ô trem bão, minha gente! Mal acabou o restim de farofa das férias e já tá aquele rebuliço na cidade: é menino chorano porque num qué largá o videogame, é mãe gritano “anda logo que o ônibus amarelo tá buzinano!”, e os tal dos ônibus escolar tudo reluzente, mais amarelo que gema de ovo de galinha caipira.
A vorta às aula chegô chegano! Lá vai a criançada toda arrumadinha, de uniforme verdinho e branco das escola municipal, pareceno um monte de pé de alface organizado em fila indiana. É um tal de Nelsina pra cá, creche Leda pra lá, e os pequenininho tudo com mochilinha maior que eles mesmo, arrastano no chão igual saco de milho furado.
Nas estaduar também num é diferente não! A Maria Paula agora tá toda alinhada, porque virô Escola Cívico-Militar. Pois é, minha gente! Agora tem mais disciplina que fila de banco em dia de pagamento. Os aluno entra quase marchano, camisa pra dentro da calça, cabelo no capricho e postura mais reta que cerca nova. Dizem que até o sinal toca mais firme, quase em posição de sentido! Mas no fundo, continua tudo estudante do mesmo jeitinho: doido pra sabê que dia vai tê passeio e quando começa a educação física.
A Carlos Augusto tá daquele jeito: professor ajeitano diário, diretor fazeno cara de brabo e os menino perguntano se esse ano vai tê educação física todo dia. A Miguel Pires já ouvi dizê que tem fila na cantina antes mesmo do sinal tocá. E a Theodora, chique que só ela, já tá organizano reunião pra explicá que “esse ano é pra estudá pra valê”, igual todo ano.
Enquanto isso, os pai e as mãe respira fundo, faz conta, compra caderno, reclama do preço do lápis e diz que no tempo deles era só um caderninho e tava bão demais.
Mas ocês pensa que a cidade para por causa das aula? Que nada! Mal dá tempo de guardá o material escolar e já começa o batuque lá no barracão da Escola de Samba Voz do Morro. E esse ano o trem tá diferente, viu? Quem tá comandano a folia é ninguém menos que **Ney Viola**, que segura aquele microfone como quem segura rédea de cavalo bravo. O home grita “Ô bateria!” e o surdo responde na hora, parece até trovão em tarde de verão.
É ensaio pra cá, é surdo roncano pra lá, é passista treinano no meio da rua desviando de bicicleta e de cachorro deitado. E o Ney Viola lá na frente, animano o povo, puxano o samba com aquela voz que atravessa o morro e desce até a venda do seu Chico. Dizem que quando ele começa o refrão, até quem foi só pra espiá acaba sambano sem percebê.
O povo fala: “Esse ano a Voz do Morro vem que vem!” E vem mesmo! Já tem costureira virano noite pregano lantejoula, carnavalesco gritano que precisa de mais brilho e o pessoal da bateria ensaiando até o poste pedi arrego. E com o Ney Viola no comando, ninguém fica parado — se bobear até o pessoal da Maria Paula, tudo em posição direitinha, vai marchá no ritmo do samba sem querê.
E assim segue nossa cidade: de manhã é lição de casa, à tarde é ensaio de samba, e à noite o povo já tá planejano fantasia e conferindo se o uniforme verde e branco tá lavado pro outro dia.
Porque aqui é assim, minha gente: a gente estuda, trabalha, samba e ainda arruma tempo pra proseá na calçada.
E se ocê me dá licença, vou ali vê se o ônibus amarelo já passô… mas se eu escutá o Ney Viola puxano o samba, capaz de eu perdê o recreio de novo!
Até semana que vem,
**Zé Lagarto** 🦎🥁
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