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Quarta-feira, 02 de Setembro de 2026

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Tadeu de Resende: Quando a solidariedade se transforma em eternidade

O Lar São Vicente nasceu dessas mãos e continuará existindo enquanto houver alguém para lembrar que a solidariedade também constrói a história."

Tadeu de Resende: Quando a solidariedade se transforma em eternidade
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Por Tadeu de Resende
No ano de 1979, recebi um dos convites mais significativos da minha vida: integrar a comissão responsável pela construção do Lar São Vicente de Paulo, em Piedade. Naquele momento, talvez nenhum de nós tivesse a dimensão da importância daquela missão. Éramos apenas cidadãos movidos pelo desejo de oferecer dignidade àqueles que, depois de uma vida inteira de trabalho, necessitavam de acolhimento, respeito e carinho. A construção do asilo era um antigo sonho dos vicentinos da cidade.
A comissão era formada por nove integrantes: Nicola Vichi, Sérgio Barbosa Ortiz, Anchises Arlindo Ferraz, Antônio Álvaro Leite, José Pereira da Silva, José Anchieta, José Eurico de Oliveira, Vicente Teixeira de Freitas e eu, José Tadeu de Resende.
Antes mesmo de pensar na construção, era necessário garantir a área para sua implantação. Generosamente, o senhor Mario Gomes de Abreu doou um terreno de 12.100 metros quadrados, tornando possível o início desse grande sonho coletivo.
Com o terreno assegurado, compreendemos que seria preciso planejar cuidadosamente cada etapa. Reunimo-nos inúmeras vezes para definir objetivos, elaborar estratégias e encontrar meios de arrecadar os recursos indispensáveis para transformar aquele ideal em realidade.
Criamos uma equipe destinada ao desenvolvimento do projeto arquitetônico e funcional. Como engenheiro, recebi a missão de visitar instituições que já acolhiam idosos na região. Percorremos municípios como Sorocaba, Tatuí, Porto Feliz, Itu e Cesário Lange.
Cada visita representava uma verdadeira aula. Observávamos atentamente o funcionamento das instalações, conversávamos com administradores, funcionários e moradores. Procurávamos identificar as melhores soluções e aprender com as dificuldades encontradas. Nosso propósito era construir um lar que reunisse funcionalidade, conforto, segurança e, acima de tudo, humanidade.
Dessas experiências nasceu um projeto moderno para a época: aproximadamente dois mil metros quadrados de área construída, com capacidade para acolher cem idosos. O conjunto contava com uma recepção central em formato hexagonal, interligando as alas masculina e feminina, além da área de serviços, composta por cozinha, refeitório, lavanderia, enfermaria e demais espaços de apoio.
Com o projeto concluído, surgiu o maior desafio: construir sem possuir recursos financeiros suficientes.
Naquele tempo praticamente não existiam programas públicos capazes de financiar uma obra dessa dimensão. Restava apenas um caminho: confiar na solidariedade da população.
Antes mesmo do início das construções, precisávamos realizar a locação da obra no terreno. Solicitei ao senhor Osmar, companheiro de trabalho no Departamento de Estradas de Rodagem (DER), que executasse gratuitamente os serviços de topografia.
Sua resposta jamais saiu da minha memória.
Com um sorriso simples, ele apenas disse:
"Faço o serviço com prazer. Só lhe peço uma coisa: se um dia eu precisar de uma vaga no asilo, ajude-me."
Naquele instante, aquelas palavras pareciam apenas uma brincadeira. Entretanto, a vida costuma escrever histórias que nenhum de nós conseguiria imaginar.
Anos depois, já aposentado, Osmar perdeu completamente a visão. Certo dia, recebi sua ligação. Com voz serena, lembrou-se daquela antiga promessa e pediu ajuda para conseguir uma vaga no Lar São Vicente.
Entrei imediatamente em contato com a direção da instituição, e seu pedido foi atendido. Foi justamente no lugar que ele ajudara a nascer com seu trabalho voluntário que viveu seus últimos dias.
Essa foi uma das maiores lições que a vida me proporcionou: o bem que fazemos sempre encontra o caminho de volta.
Com o início da construção, cada tijolo colocado parecia carregar a esperança de toda uma comunidade.
Criamos o tradicional Livro de Ouro, utilizado para registrar as contribuições da população. Nos fins de semana, percorríamos bairros urbanos e comunidades rurais, visitando famílias, conversando com comerciantes e pedindo ajuda de porta em porta.
Chegávamos até mesmo às filas dos bancos para apresentar o projeto e solicitar pequenas doações. Cada contribuição, por menor que fosse, representava mais um passo rumo ao nosso objetivo.
Também promovíamos almoços beneficentes, festas populares, rifas, roletas e diversos eventos comunitários. Aos poucos, a cidade inteira passou a sentir que aquela obra não pertencia apenas à comissão, mas ao coração de Piedade.
Houve momentos difíceis.
Em diversas ocasiões, alguns membros da comissão utilizaram recursos do próprio bolso para impedir que a construção fosse interrompida por falta de materiais ou de pagamento da mão de obra. Não buscavam reconhecimento nem esperavam recompensa. Faziam isso porque acreditavam que servir ao próximo era um compromisso maior do que qualquer interesse pessoal.
O cronograma inicial previa cerca de dez anos para a conclusão da obra.
Entretanto, quando existe união, dedicação e amor ao próximo, o impossível torna-se apenas mais uma etapa a ser vencida.
Graças ao esforço coletivo de toda a comunidade, o Lar São Vicente foi concluído em menos de cinco anos — um feito extraordinário para aquela época.
Hoje, ao recordar essa história, compreendo que não construímos apenas um edifício.
Construímos um lugar onde centenas de pessoas encontraram acolhimento, proteção e dignidade.
Construímos um patrimônio humano.
Escrevo estas lembranças por uma razão muito especial.
Quando iniciamos essa jornada, éramos nove companheiros unidos por um mesmo ideal. O tempo, porém, seguiu seu curso inexorável. Um a um, meus amigos partiram, deixando como herança suas obras, seus exemplos e suas memórias.
Hoje, ao que tudo indica, sou o único integrante daquela comissão ainda vivo.
Sinto, portanto, o dever moral de registrar essa história para que ela não desapareça com o passar dos anos.
Os nomes daqueles homens permanecerão gravados não apenas em documentos ou fotografias, mas na gratidão silenciosa de cada idoso que encontrou naquele lar um lugar para viver com dignidade.
As construções envelhecem.
As paredes um dia precisarão de reformas.
Mas os gestos de amor praticados em favor do próximo jamais se desgastam.
Eles permanecem vivos na memória das pessoas e, sobretudo, no coração de Deus.
"O verdadeiro patrimônio de uma cidade não está apenas em suas obras de concreto, mas nas mãos anônimas que as construíram movidas pelo amor ao próximo. O Lar São Vicente nasceu dessas mãos e continuará existindo enquanto houver alguém para lembrar que a solidariedade também constrói a história."

FONTE/CRÉDITOS: Por Tadeu de Resende
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